Ainda não
acredito que ela veio me falar que se achava a “pior das
criaturas”, a princípio contrariei, destacando seu talento
reflexivo, criativo, intuitivo. A sua doçura como a seriguela,
tirada dos fundos do quintal na casa da minha avó e saboreadas no
fim de uma tarde de quinta-feira. Levantei todos os pontos que
qualquer pessoa que a conhece e que corroboram contra essa infame
frase dita por ela.
Mas o enganado
era eu, ela se referia à sua estética física. Em minha defesa,
argumento: não tem como isso passar pela cabeça de alguém lúcido,
alguém com suas faculdades mentais em dia. Pois ela é o exemplo do
que Deus faz quando quer homenagear a beleza feminina.
A cada suspiro
que ela dá para manter a existência um homem no mundo se apaixona,
como nem todos têm a sorte de conhecê-la estes são levados à
paixão por aquela de quem se aproxima. Enquanto os próximos a ela
oferecem seus próprios suspiros de vida, como forma de tributo a
essa deusa.
Todas as suas
armas não são escondidas por gigantescas partes da anatomia, estas
são usadas por quem não têm muito que usar, e só atrai famintos
que não sabem saborear uma mulher como ela merece. Esta é armada
com sutilezas, peças de encaixe perfeito, as especiarias que levaram
os europeus às índias.
As multidões
correm ao supermercado para vê-la fazer compras, enquanto os
produtos desfilam nas prateleiras, as rodas do carrinho deslizam pelo
piso de mortais. Apesar de tudo, é mais um dia, é mais um momento
do cotidiano, que faz a vida ter sentido. Por isso, que desejei, por
diversas vezes, levar minha cadeira de praia e sentar, ali no meio do
corredor, enquanto ela passeia entre as prateleiras, afinal, não é
todo dia que se vê um quadro da vida real ser pintado.
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